sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

e eu com d2ois ventiladorers de teto e um ar condicionado querendo fazer de conta que o verao nao existe no meu coracao



querida
tudo bem contigo?
como batata doce assada
bebo vinho escuro gelado
e abro as portas para a chuva
que insiste em nao cair.

tive que abandonar
as particulas elementares,
foram ficando intragaveis.
nao deu mais,
desalinhei

mas tudo bem,
comprei tres colchas novas:
uma faqueiro hermes
uma coberta de mesa schmidt
e botei as batatas para assar

descobri
que "nada disso importa
vou abrir a porta
pra vc entrar
ahhhh ahahh
meu doce vampiro
me acostumei com vc
sempre reclamando"
...

fazem uns 3 dias
que o mundo ficou do avesso
me debati
meditei
comprei a tal louça:
a porcelana schmidt
as colchas
assei a batata
destampei o vinho
e...

nada!

a vida continuou miseravel
dentro de mim.
arrumei briga
com o unico amigo que tinha aqui
no rio de janeiro
e mandei ele tomar no cu
porque ele eh um frouxo
um escritor punheteiro
preocupado com um contrato
e um cronograma...
o resto para ele era ejetavel...
[inclusive myself]

abortei ele !

amanha chega
meu irmao
com mulher
e 1 casal de amigos
e eu aqui,
com d2ois ventiladorers de teto
e um ar condicionado
querendo fazer
de conta
que o verao nao existe
no meu coracao

mas ele ferve babe!
queima feito
oleo diesel sujo,
e nao tem nada
que um punhado
de desacompanhamento
resolva:
estou do mesmo jeito
que quando nasci:

- só

irremediavelmente só

e sem a menor
ou mais vaga ideia
de onde possa estar indo.
enquanto isso:

boio...




e os pombos cagam na cobertura.


adoro!


e peido para os vizinhos,


sempre amarrados nos seus contratos:


- dia certo da coleta do lixo


- na assepsia da portaria


- nas leis...


debeis desejos de afeto



the law,


always the law...

fuck off the law!!!!!!



*
*
*
*





























Offline
Marcia Jappe Fagundes




escrito ao som de discos de vinyl: replicantes, jesus&MC, brian eno, fine young canibals, peter gordon, bowie, old caetanos, entre outros

sábado, 19 de fevereiro de 2011

brocas, perdizes & bolhas de sabão




cara, minha cirugia dentaria ontem fui punk!
foram 3 horas para extrair um ciso e um molar inclusos.
deus resolveu me pregar uma peça e plantou dois dentes
que nasceram para dentro, um de frente para o outro.

primeiro passo: um corte de uns 5 cm na gengiva
depois vem a broca retalhando os dentes em pedaços
que são extraidos aos cacos com pressão de alavancas...

detalhe:
nao existe dor fisica, a anestesia eh perfeita...
mas, eh como se vc fosse um carro numa oficina mecanica.
o trabalho da broca as vezes libera cheiro de osso queimado.
e eh claro, sempre tem aquele gosto de sangue na boca.
a broca gasta, o sugador entope, mas as pancadas nao param.
tres horas ininterruptas...

e eu que sempre fui a favor do parto natural, rss

1. na primeira hora tentei meditar.
2. na segunda passei a limpo meus ultimos romances
depois do casamento: uma fila de finais fantasmas.
pulei essa parte.
fui parar aos 19 anos numa estrada abandonada com a silvia,
no banco da belina branca: o sol se pondo e a gente
mandando ver...
foi especial porque ela estava menstruada.
o verão, o calor e aquele odor de sangue quente com buceta
me subindo pelas narinas ofegantes...
e agora sentado nessa cadeira sendo massacrado e bebendo sangue:
se isso nao for poesia, entao deus-que-me-perdoe!
3. na terceira e ultima entrei num estresse meio assustador
tipo panico mesmo, medo de perder o controle:
quero que pare tudo! quero ir para casa!


entao separei um pouco do meu lixo:

1. tipo uma vez que saimos para santo augusto eu e meu pai:
fomos caçando perdizes na estrada de chao vermelho,
durante um trajeto de uns 60 km.
lah chegando, fomos direto para a loja do claudio
que era um cara que foi socio do meu velho
nessa loja de santo augusto durante alguns anos.
mas, "ele era muito porco e preguicoso" - reclamava o meu pai.
matamos algumas perdizes no caminho, ou melhor
eu matei, enquanto meu pai dirigia.
nao lembro jamais de ter visto ele atirando,
desde que me ensinou o oficio.
ele sempre dirigia e bebia seu vinho, eu fazia os disparos.
e nao lembro dele deixar meus dois irmaos mais novos atirarem,
quando saiamos os quatro aos domingos, depois do almoço:
os dois menores iam no banco de tras,
eu seguia na frente, com o garrafao de vinho tinto
no meio das pernas, mais a 28 dois canos nos braços
com o cano virado para o asoalho do carro:
um ford corcel marrom modelo "ldo" placas OA 0330.

entao aconteceu o inesperado
meu velho abriu o parta-malas para mostrar a"caça"para o claudio,
e uma perdiz disparou voando aos berros prrrrriiiiiiiiiiiiiiiiii!
foi parar no quintal, atras da loja.
estava dando um trabalho danado para recapturar ela,
então meu velho perdeu a paciencia e disse:
- filho PEGA A 28 NO CARRO!!!
o claudio coloccou as duas maos na cabeça e suplicou:
- nao ivo! pelo amor de deus aqui na minha loja nao!!!
e o velho soh fez aquele "tisk tisk" de desprezo e suspirou.
depois disso o claudio se embrenhou
no galharedo onde a ave estava escondida
e voltou com ela se debatendo nas suas mãos...
- me dah essa fdp aqui!
segurou-a com a mao esquerda, e com a direita
torceu-lhe o pescoço desnucando a miserável
- guarda ela filho, que quando a gente chegar em casa
a tua mãe prepara uma polenta e a gente faz a festa!!



2. lembrei tambem de nos sentados em cima do galpao lah de casa
com uma lata de nescafe cheia da agua e sabao
fazendo bolinhas no topo do telhado
eu o mano e o toco
usavamos canudos de abobora
(colhidos da horta de casa)

a gente ficava la em cima
sentados bem na cunheira,
na parte mais alta das telhas
disputando quem fazia a bolha maior.
nao tinhamos nenhuma protecao,
bastaria um desequilibrio
para rolar telhado abaixo

esses foram os dias magicos,
as tardes de verao sem fim,
o prisma das cores
refletidos na bolha de sabão.
as vezes batia uma brisa
e elas subiam... subiam...

e a gente lah:
- olha essa, olha a minha!

Summertime,
And the livin'is easy.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

dna




nao tenho nada
nunca ticve
nunca vou ter
nada
nada eh o meu lema
nada
como
dna

meu destino
eh nadar
no
dna
do nada
assim
como quem nao quer
nada
e nunca vai
chegar
a lugar
algum

destino
incerto
pau torto
fade in
fade out
entra
e sai
feito
sexo
em
carne
vazia

nada
dna
fome
sem
comida
sou isso
fome sem food
foodless
fomeless
less






melhor assim






subir num telhado
de ceramica
soprar bolhas de sabao
em canudos de abobora

tinha doze anos
escalava o telhado
com meus dois irmaos
e ficavamos assim
vendo quem fazia
a maior bolha
cortar o veludo do ceu

no fim de tudo
elas sempre
inevitavelmente
estouravam



entao tah,
ficamos assim:

vc eh minha
minha bolha
de sabao

sopro vc
contra
o veludo
negro do ceu
de sexta
a noite


sopro
vc vem
cresece
voa
flutua

e


puft!

estoura

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

my beatnick [casandra veras]







oi. ando por aqui. tudo bem igual. e vc?
lembro sempre de vh. rs.
escrevi algo pra vc e não lembro se lhe enviei.
de toda forma é coisa antiga: segunda-feira, 1 de março de 2010 17:14:54.
é assim:



tenho meu próprio beatnick.

bem, ele é quase meu. não. tá legal.

ele é dele. ele dá muita gargalhada das etiquetas

das camisetas e da sala de jantar, são as pessoas da sala de jantar.

mas ele usa só taco. também gosto. mas uso só camisetas brancas

fabricadas por escravos em taiwan. as torres taiwan.

mão de obra barata, eles entre as baratas. e a logo: basic.

camplítilibêizic. é isso. eu só uso elas. e havainas.

só uso coisa de marca. e uns shorts grandes que disfarçam

que não tenho sex appeal. mas voltando ao meu beatnick.

ele é meio henry miller também. louco por vulvas e vaginas.

fica rebelde se estraga a bandeira gay, mas estraga as bandeiras gays.

não porque não curta exatamente lésbicas ou homossexuais.

o lance é que no momento a bandeira precisava do urubu, e vice-versa.

ele escreve e eu penso que kerouack está vivo e nu.

que aqueles outros caras também estão.

e o vejo na moto amando uma mulher durante quinze anos.

mulher de sorte. mulher de puta azar.

meu beatnick não é fácil. mas é genial como todo beatnick.

ele é lindo e esporra talento. tem algo certo com ele.

tem algo de muito errado. a mãe dele sabe e pergunta:

e aí, filho?, que óculos está usando hoje?

ele é rebelde quando escreve. não só quando escreve.

ele é rebelde porque tem coisas demais sobrando.

doze corações, vários órgãos sexuais, multidão de olhos e mãos.

ele cria choques. você olha o que ele cria e se arrepia e cai no chão

estrebuchando. são coisas fortes. muito sangue escuro preto e branco

escorrendo dos buracos e letrinhas e números.

você olha o que ele cria e quer chorar porque há algo etéreo

e muitas asas e tudo queimando. ele diz que há sempre algo queimando.

concordo.

quando ele escreve e quando eu leio ele é tão rebelde.

me leva pros motéis de sam shepard e eu vejo perto

da piscina suja uma boneca pela metade. a cabeça suja

e o corpo do outro lado. sem pernas, sem braços.

brinquedo encardido, poeira e um cara com chapéu

de cowboy se balançando numa cadeira

lendo os poemas do corso. o chevrolet batido, pneus carecas

descansa perto do posto. betty blue tá fumando um cigarro e olhando as moscas.

é viagem. meu beatnick é uma viagem.

entendo tanto ele que tenho medo.

às vezes ele me faz saber como é um homem.

ele mente. ele joga. ele tripudia. e dirige um caminhão laranja

pelas noites apanhando sacos plásticos de culpa, limpando as ruas.

ele é um fodido porque ele gosta dessa palavra. só por isso.

ele é tão livre que as borboletas ficam se doendo.

eu tenho meu próprio beatnick que não é meu.

um dia vamos nos embriagar de tequila e eu vou ter que correr.

senão ele me come. ou então vou ficar e devorá-lo.

a hard rain is gonna fall

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

malacara

ferias de julho
quase nada para fazer
chovia faziam dois dias
sete moleques na barraca
jogando cartas
matando tempo para espantar o tedio
dando tiros com a 22
nos escassos passaros
que se arriscavam pelos arredores do mato,
onde os guris acamparam...

eis que o filho do estanceiro sentenciou:
- já sei, vamos comer a malacara!!!

amarramos a egua com o traseiro
voltado para a cerca de 6 fios
e fizemos uma fila para fode-la…

chegou a minha vez:
a buceta dela
dava bem na altura
dos meus olhos.

subi no segundo fio de arame
e com a mao esquerda
agarrei o fio do alto
entao enfiei o punho
da mao direita dentro dela

senti as carnes quentes
do animal se abrindo
ao passar da minha mao

enterrei até o cotovelo
e ela nem se mexeu

fiquei com o braço
la dentro
parado,
observando a chuva cair
sobre o soja verde
do ceu cinza dos meus 15 anos

entao virei as costas
e caminhei de volta
para o acampamento

nao sem antes ouvir os gritos:
- tem que comer!
- tem que comer!

virei-me e vi
os meninos perseguindo
meu primo de 10 anos
que chorava e corria
debaixo da chuva


...


natal passado,
30 anos depois
ele se enforcou

na cadeia

em charqueadas

porto alegre

sozinho


mala suerte

malacara