quarta-feira, 1 de setembro de 2010

la vida no vale nada





lembro de estar deitado no carpete, na penumbra do quarto
numa dessas horas da tarde em que o tempo parou
lembro que tinha tomado uns comprimidos de codeina
gentileza de um pos parto do meu primeiro filho
o reflexo da luz na janela num anos desses tipo 1991
lembro que era em san fernando valley na casinha no meio do mato
perto do universal studios, subindo o morro pela laurel canyon
lembro de estar grudado no carpete, sentindo todos os meus ossos
lembro de pensar em mover um dedo, de uma das maos e lembro
de sentir o pensamaento ser gerado dentro das moleculas do meu cerebro
e depois vir andando, calmamente pelas moleculas do pescoço
correndo pelos ombros, pensamento de mexer o dedo da mao
andando pelo braço, ante braço, punho e chegando na mao
o pensamento de mover o dedo chegando na mao, ocujo dorso
tocava o carpete, e aleatoriamente o pensamento percorria
e escolhia um dos dedos, e entao uma leve tremida
e o dedo move-se
esse instante foi eternizado em talvez duas horas e um saco de codeina
mas foi assim que sucedeu, desde a concepcao ateh a execuçao do movimento
e o tempo congelado, e todos os meus ossos, todo o meu ser
congelado no contato com o carpete do quarto
os relfexos da luz passando pelos arbustos na janela
e desenhando o teto do quarto em camera lenta

acabei de assistir a obra prima do jamursh: THE LIMITS OF CONTROL
e a sensacao foi a mesma do quarto e a codeina.
jim fez um filho velho… eh um filme velho de causar arrepios em qualquer
merda que o david lynch jah fez…
eh um filme que manda o jabor para a cadeira eletrica, recitando parabolas
de amor pelo fhc…
eh um casamento sublime entre roteiro, fotografia e direcao de arte
talvez soh comparado com aquele fax que o thomas pynchon manda no comeco
do arco-iris da gravidade, e vc recebe lah pelo meio do livro…
as referencias visuias, os recados sao calcados na memoria do espectador
com uma propositalidade estonteante, sublime, sublime...

lembrou me a sensacao da primeira vez que pisei no rio de janeiro ah 15 anos atras
atrevessei a rua em ipanema e parei em frente da vitrine de uma papelaria
e fiquei ali olhando um globo com o mapa mundi,
acho que chamam isso de atlas,
nao sei bem...

pois bem essa ipanema esse rio essa idade, soh existe na memoria,
porque um ano depois , quando voltei para morar aqui no rio
e passei no mesmo lugar , na mesma vitrine
fiquei vazio
porque aquilo tudo nao existia mais
era outro lugar aquele em que eu tinha estado da primeira vez:
outro cheiro de rua, outro movimento de carros
era um lugar definitivamente "maior"

eu nunca mais poderia visitar esse lugar, esse rio, essa papelaria, esse atlas
isso deifinitivamente soh existiu naquele instante

como quando pulei a janela de uma pensao perto da rodoviaria em santa maria
a uns 35 anos atras…
tambem era a primeira vez que eu visitava aquela cidade
(estava lah para me matricular no colegio marista)
pulei a janela de madrugada
e sai para comprar sorvete

dois meses depois, voltei para morar lah,
e para minha surpresa
o lugar nao existia mais,
o sorvete
a cidade
o cheiro da noite
tudo tinha sumido

assistir THE LIMITS OF CONTROL me lembrou isso

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