sexta-feira, 3 de setembro de 2010

chumbo, marlboros & gin




era uma vez um cara

que estava por aih solto no mundo

e um dia

uma menina

disse para ele

que acreditava nele

e nas coisas que ele escrevia

entao , ela foi como

uma faisca na vida dele


ele era assim

como aquele soldadinho de chumbo

com uma perna soh

acabou a materia prima

e ...

ficou faltando um pedaço nele


e ela era assim

como aquela bailarina

com uma perna erguida

e uma lantejoula

que brilhava no peito

do vestido de gaze

entao

ele achou que ela era

como ele:

faltando um pedaço

( não viu a perna esticada no ar)



a partir de entao

os dias dele

passaram a ter sentido

ele seguia firme

com seu bravo fuzil

e olhando para ela

em sua graça infinita

postada em cima de um espelho

que poderia bem ser um lago

ou a propria existencia

refletida aos olhos dele



poderia bem ser ele

um edward maos de tesoura

um cara imcompleto

que se bastava

vendo a menina no lago

ou no gelo

do seu copo de gin

e,

ele ouvia richard hawley

e pensava:

deus existe

o mundo eh bom

ela me quer

entao, pra que preciso

de outra perna?


mas tinha o palhaço

que morava na caixa de molas

e mandava girasois dourados

para a bailarina


as vezes

o soldadinho ligava

para ela tarde da noite

e

ela nao atendia

e o tolo pensava:

devem ser os girassois

deve ser a seducao

a proximidade do armario

pois ele (o palhaço)

ficava muito proximo dela (a bailarina)

e o soldadinho

guardado na caixa

nada podia fazer

a nao ser esperar...

esperar que seu dono (o menino)

tirasse ele da caixa para brincar



entao um dia

num desses dias de chuva

(ele adorava chuva)

o menino esqueceu

o pobre coitado

na borda da janela

e...

o palhaco saltou de sua caixa-de mola

e empurrou-o

mundo a baixo...

ele caiu direto

na chuva da calçada


dois moleques

fizeram um barquinho de papel

e jogaram ele lah dentro

flutuando na sarjeta

em dois tempos

foi barco bueiro a dentro

e de lah para o mar

foi num tempo

e dor mar para o estomago do peixe

foi comido

um peixe escuro por dentro

mas o soldadinho nem ligou

porque estava acostumado

ao breu da caixa

entao,

o peixe foi parar na mesa

do menino

e de lah com um sorriso

direto para aprateleira

em frente a bailarina


mais uma vez

back to home

ela amou ele chorou

e,

naquela tarde

ela viu

lagrimas de chumbo

verterem de sua face

e

percebeu

que muito mais

do que ela suspeitava

ele tinha um coracao


mas naquela noite

o palhaco saltou de sua caixa de molas

e arremessou o miseravel

dentro do fogo da lareira:

ele ficou lah

se derretendo em lagrimas

quando subitamente

um vento sorrateiro

varreu a sala

e jogou a bailarina

nos seus braços...

no outro dia

limpando a lareira

em meio as cinzas

a empregada

encontrou

um coraçãozinho

de chumbo derretido

e

bem no meio

dele

encravada

uma lantejoula

fundida no chumbo

de seu peito

e,

acho,

que de alguma maneira

mesmo

com todo o fogo

que os consumiu

eles devem estar

em algum outro lugar

felizes para sempre

bebendo gin

fumando marlboros


®vhc.2008

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

la vida no vale nada





lembro de estar deitado no carpete, na penumbra do quarto
numa dessas horas da tarde em que o tempo parou
lembro que tinha tomado uns comprimidos de codeina
gentileza de um pos parto do meu primeiro filho
o reflexo da luz na janela num anos desses tipo 1991
lembro que era em san fernando valley na casinha no meio do mato
perto do universal studios, subindo o morro pela laurel canyon
lembro de estar grudado no carpete, sentindo todos os meus ossos
lembro de pensar em mover um dedo, de uma das maos e lembro
de sentir o pensamaento ser gerado dentro das moleculas do meu cerebro
e depois vir andando, calmamente pelas moleculas do pescoço
correndo pelos ombros, pensamento de mexer o dedo da mao
andando pelo braço, ante braço, punho e chegando na mao
o pensamento de mover o dedo chegando na mao, ocujo dorso
tocava o carpete, e aleatoriamente o pensamento percorria
e escolhia um dos dedos, e entao uma leve tremida
e o dedo move-se
esse instante foi eternizado em talvez duas horas e um saco de codeina
mas foi assim que sucedeu, desde a concepcao ateh a execuçao do movimento
e o tempo congelado, e todos os meus ossos, todo o meu ser
congelado no contato com o carpete do quarto
os relfexos da luz passando pelos arbustos na janela
e desenhando o teto do quarto em camera lenta

acabei de assistir a obra prima do jamursh: THE LIMITS OF CONTROL
e a sensacao foi a mesma do quarto e a codeina.
jim fez um filho velho… eh um filme velho de causar arrepios em qualquer
merda que o david lynch jah fez…
eh um filme que manda o jabor para a cadeira eletrica, recitando parabolas
de amor pelo fhc…
eh um casamento sublime entre roteiro, fotografia e direcao de arte
talvez soh comparado com aquele fax que o thomas pynchon manda no comeco
do arco-iris da gravidade, e vc recebe lah pelo meio do livro…
as referencias visuias, os recados sao calcados na memoria do espectador
com uma propositalidade estonteante, sublime, sublime...

lembrou me a sensacao da primeira vez que pisei no rio de janeiro ah 15 anos atras
atrevessei a rua em ipanema e parei em frente da vitrine de uma papelaria
e fiquei ali olhando um globo com o mapa mundi,
acho que chamam isso de atlas,
nao sei bem...

pois bem essa ipanema esse rio essa idade, soh existe na memoria,
porque um ano depois , quando voltei para morar aqui no rio
e passei no mesmo lugar , na mesma vitrine
fiquei vazio
porque aquilo tudo nao existia mais
era outro lugar aquele em que eu tinha estado da primeira vez:
outro cheiro de rua, outro movimento de carros
era um lugar definitivamente "maior"

eu nunca mais poderia visitar esse lugar, esse rio, essa papelaria, esse atlas
isso deifinitivamente soh existiu naquele instante

como quando pulei a janela de uma pensao perto da rodoviaria em santa maria
a uns 35 anos atras…
tambem era a primeira vez que eu visitava aquela cidade
(estava lah para me matricular no colegio marista)
pulei a janela de madrugada
e sai para comprar sorvete

dois meses depois, voltei para morar lah,
e para minha surpresa
o lugar nao existia mais,
o sorvete
a cidade
o cheiro da noite
tudo tinha sumido

assistir THE LIMITS OF CONTROL me lembrou isso