
leia ouvindo tom waits https://www.youtube.com/watch?v=4JBgqJcr-eg
passei a noite toda sonhando
com um revolver que nao disparava
as balas escapavam
pelo meio do tambor
porque eram menores que deveriam
as balas caiam no chao
e voavam por debaixo da porta
rumo a noite
e caiam molhadas de volta aos meus pes
porque chovia lah fora
e eu as enfiava no tambor
porque estavam atras de mim
e tinha que me defender
queria fazer disparos no escuro
para afugentar o medo do desconhecido
entao passavam cachorros gordos
uma mulher com um soh peh
empurrada numa cadeira de rodas
por dois guarda-costas horrendos
e ela no unico peh usando um sapato vermelho
coaxando pelo mesmo corredor onde eu tinha
um quarto e um revolver que nao disparava
e da janela via duas meninas adolescentes
numa cama com os seios nus se beijando
e a mulher monstro, com a outra perna
meio bio mecanica se arrastou
para dentro do quarto vizinho
e deixou o cachorro gordo na porta
e um dos guarda costas sai do quarto
enfia a mao nas dobras da gordura
do pescoco do animal ...
o cao rosna e ele chafurda a gordura
do pelo amarelado
e arranca uma linguiça escondida
o cao mostra os dentes furiosos
o homem parte ela em dois pedacos
oferece o menor para a besta
que quase arranca a mao dele
entao mastigam barulhentos os dois
e o guarda costas devolve a sua metade
mastigada para o cao com um fiapo
de pergaminho de sebo escorrendo do meio...
e a unica coisa que sei eh que aquela
era A linguiça que continha o bilhete premiado
que estava espalhado em todos outdoors
da cidade, vendendo um sonho
a linguiça do sonho de todos os mortais
com o pergaminho contendo todas as respostas
estava sendo mastigada por dois mosntros rudes
entao
para minha surpresa o cao come toda a carne
cuspindo somente o pergaminho
me atiro desesperado em cima dele
Mas o gangster pisa e esmaga minha mao
com a outra eu puxo o revolver
para mostrar que tenho um
ele puxa o dele e dispara sem balas,
tiros secos
e sorri demonstrando que conhece o jogo
de disparar sem balas
mas eu atiro nele furioso
com meu revolver cheio de balas
que nao explodem
e o tambor se abre, com as balas em chamas
e o gangster entre surpreso e furioso percebe
que eu queria realmente acabar com ele
que eu nao era um blefe sem balas
mas um azarado com as balas erradas...
desesperado tento recolocar as balas
e apagar o fogo que ameaça explodi-las
nas minhas maos
enquanto ele corre pelos bolsos
em busca de balas para carregar seu tambor
e eu me viro e corro
e vejo que estou em sao paulo
as 4 e 50 am escrevendo isso para vc
e que vim aqui atras do bilhete premiado
que nao existe,
vim a toa, porque nada vai acontecer
compreende??
nao existe o bilhete premiado
a pessoa que ficou de me receber aqui
eh mais enrolado do que eu
me levaria numas agencias de publicidade para
me apresentar para umas pessoas, para vender alguma coisa minha
e eu nao pedi nada,
nao pedi para vir aqui,
mas vim
porque ele viu oque faco e disse:
- meu!!! vem para sao paulo que vou te apresentar uns caras
e eu aqui com mais um fim de mes
e o meu dinheiro acabando
viemos eu e meu revolver com as balas erradas
assustado, me fazendo de matador
um blefe essa viajem, um engano
entao uma das adolescentes invade o corredor
da pousada de monstros onde estou hospedado
fugindo de um homem que a persegue
eu agarro ela, que tenta gritar, e enfio o revolver na cara dela e tapo a sua boca
e arrasto ela para o meu quarto
mas nao sei mais qual eh a minha porta
nao consigo pelos demonios que me matem
saber mais qual eh o meu quarto
passo por portas escuras, corredores
com mercadinhos podres vendendo coisas
pessoas nos olhando curiosas
e eu arrastando a menina
buscando uma porta do meu quarto sujo
querendo comer ela, mas tentando dizer
que nao sou do mal
que sou a unica salvacao dela
nesse hospicio
e essa eh a segunda parte da historia
em sao paulo:
a menina que eu vim re-encontrar aqui
depois de 22 anos sem ve-la
e passei as duas ultimas tardes
amando-a nesse apartamento de pardes brancas
e mobilia desconhecida
deixando minha alma sair de mim
para dentro dela e dizendo a cada estocada
a cada penetracao
save me save me save me
e foram tantos save me s que eu
podia ouvir o canto de sereia dela
misturado com seu gozo, ensopando os lencois
e me fez bem,
e me salvou
me levou para longe bem longe
dos revolveres e das desgraças do dia a dia,
dessas desgraças do medo desconhecido
entao essa mistura de paredes brancas
com o canto da sereia gozando
e humidecendo suas pernas tremulas
fazendo-me flutuar no liquido
penetrando aquele mar salgado
e ela vertendo agua e gemendo feito sereia
foi o meu bilhete premiado
e amnaha vou encontrar o gangster
e o cachorro gordo
e nao tenho a menor ideia
doque vai acontecer
estou sempre
com meu revolver
a mao
mas nunca
sei
se alguma bala vai
disparar
em junho de 2010 estarei morando em bombay
isso eh a unica coisa que sei
meu proximo bilhete premiado!
Nenhum comentário:
Postar um comentário