segunda-feira, 12 de setembro de 2011
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
quem
27/04/2005 [texto de jeronimo cecatto]
Engatei a marcha ré e pressionei o acelerador com a força que faz alguém que deseja abrir o próprio caixão. Parei quando nao consegui passar por cima do carro que estava estacionado uns 30 metros de distância de onde eu iniciara a aceleração.
- Preciso falar contigo. Vamos lá for a – disse já tremendo.
Alguns passos e já nos encontrávamos fora da festa. Foi quando meu irmão perguntou:
- O que acontceu?
- Bati o carro… dei uma “résinha”.
- Vamos lá ver.
Mais alguns breves passos e chegamos ao carro.
- Pô Negão, tu me disse que tinha sido um “résinha”. Que paulada hein meu- disse meu irmão olhando pra parte traseira direita do carro arrebentado.
- O que eu faço agora?
- Fica tranquilo, quando eu tinha a tua idade já tinha entrado embaixo de um caminhão de moto.
Ainda muito amedrontado pelo fato de ter que enfrentar meu pai, peguei o que sobrou do carro dele e fui embora. Estacionei-o contramão, de forma oblíqua, com a porta do motorista bem em frente ao portão de entrada/saída da casa, imaginando que meu pai, na manhã seguinte, entraria no carro, me deixaria na escola e iria trabalhar sem ver o estrago que eu havia feito.
Bati a porta da frente e observei meu pai entrar no carro, exatamente como previ. Fiz a volta e coloquei a mão na macaneta para abria a porta, enquanto meus olhos percorriam a lataria destrocada e enviavam ao meu cérebro um album repleto de fotos preto & brancas daquele que seria meu segredo mais íntimo na ocasião. Meu pai vai me matar quando ver isso.
- Tenha uma boa aula filho!
- Bom trabalho pai – disse já fechando a porta e admirando o carro que partia todo torto avenida afora.
Sai da aula e corri em direção a minha casa. Subi no telhado e, mais amedrontado que na noite anterior, fiquei aguardando meus pais chegarem do trabalho. Chegou meu irmão, pai, mãe, outro irmão, uma irmã, mais outro irmão – tenho 5, pra quem não sabe – e eu firme no meu posicionamento de que a partir daquele dia, moraria em cima do telhado mesmo. Afinal de contas, a vista era privilegiada, uma vez que a casa situava-se num morro. Então ouvi o barulho dos pratos sendo servidos a mesa, e, em seguida, o tilintar dos talheres quando todos comecaram a almocar.
Sabe Deus que sempre acreditei na teoria de que todo o mal realizado nos volta de alguma maneira. Estaria ele me castigando por roubar frutas durante parte de minha infância? Ou seria por todas as vezes que menti a minha mãe que já havia tomado banho? Nessa época ela comecou a “comprar” meus banhos com chocolate.
- Oh glorioso Senhor, estas a me punir por ter vendido injustamente meus banhos? Destruí o carro por não banhar-me periodicamente quando pequeno?
Sendo então merecedor de tal punição, decidido, resolvi pagar minha penitência de uma vez. Despenquei do telhado, abri a porta da frente e arrependi-me de minha decisão assim que vislumbrei minha família repartindo a ceia. Mas era tarde demais. Baixei a cabeca e lentamente caminhei em direção a mesa. Sentei, servi uma pequena porção de arroz e feijão, cortei meio bife a milanesa, acrescentei ao prato uma pequena quantidade de pure de batatas, e fiz todo o esforço do mundo para engolir a comida toda.
Doze anos se passaram, e meu pai jamais perguntou o que acontecera naquela noite…. É, o coração é um orgão elástico mesmo.
ouça tiger lily:
http://www.youtube.com/watch?v=QU35q7PAoxE
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