
Meu quarto estava um caos, a cama de casal completamente detonada, cheia de restos de material de construção: pedras, cacos de cimento e ceramica em meio a retalhos de lencois rasgadaos... acabo de chupar tres papeis-carbonos azuis fosforecentes, estou sujo, com a roupa toda esfarrapada, pareco um mendigo urbano... deitado nesse saco de dormir no chao da calcada... começo a ver o mundo em negativo, o acido do papel-carbono começou a bater... um amigo de infancia aparece, ele quer carbono, digo que nao tenho, e ele comeca me revistar enfiando as maos pela lateral do zipper do saco de dormir. .. que merda! estou com um maço deles no meio das pernas... disfarço , me viro, digo que estou limpo... chegam outras pessoas contaminadas pelo acido, farejando a mesma loucura com os olhos em negativo, penso que meus dentes devem estar azuis... começo a falar de boca fechada, com medo de ser descoberto... desconverso, o bando segue em frente... estou em fuga, quero passar para o mundo dos sem-carbono, meus polegares jah estao todos azulados... preciso tomar um banho... chego num vilarejo pobre, entro debaixo de um chuveiro, os sem-carbono me acolhem, percebem no meu gesto do banho uma tentativa de ficar limpo... logo estou comendo na mesa com eles e o bando dos polegares azuis chega: todos armados com paus... sei que o meu destino eh ter o cranio esmagado se for descoberto no meio daquelas pessoas simples que me acolheram... então dissimulo, como de cabeça baixa, humilde: cordeiro de deus... out of the blue levanto e subo para o quarto no segundo andar, onde o dono da casa te um arma... a mulher dele me passa um revolver calibre 32, estranhamente pequeno... e um punhado de balas... elas passam atraves do tambor, sao menores, sao calibre 22. sei que tenho que descer e matar alguem se quiser permanecer vivo, entao descubro uma passagem através de uma janela estreita que dah num quarto escuro, onde tem crianças debaixo da cama, elas estão se escondendo dos carbonos... tento me enfiar no meio delas, e reconheço perplexo meus filhos a 10 anos atras, ainda criancas, misturados com as outras... me apavoro! tenho que fugir para nao por eles em perigo, pulo outra janela e caio no meio de um corredor onde estao chegando os carbonos, com paus na mao, miro meu revolver e as balas nao disparam... entao junto um porrete no chao e me atiro sobro o primeiro deles, começo a dar pauladas na cabeça até que o cerebro começa a sair pelos buracos do cranio amassado... os outros fogem... eu pulo de volta para onde sai, passo pelo quarto e chego a sala de jantar, desco as escadas... as pessoas olham minhas palmas das maos... elas estao sujas de massa de modelar azul fosforecente... sera que foi aquele cerebro que esmaguei?! “Cordeiro de deus que tirai o pecado do mundo, dai-nos a paz”... lavo as maos sem sucesso... ouço as vozes fervilhando do lado de fora, tento arrancar novamente a pasta azul das minhas mãos... esfrego forte: fica limpo. Abro a porta e saio caminhando de cabeça baixa... logo estou numa estradinha de chão empoeirada... passa um conversivel branco, um cadillac enorme, que para e abre o porta malas... entro e uma menina escaneia meus polegares com uma pequena maquina luminosa ... eu conheco ela, nao sei de onde, ela sorri e diz que no polegar esquerdo nao tem nada, que estou limpo... entao o motorsita que esperava o ok, para saber se eu seguiria com eles dá partida... fico louco ao reconhecer que o motorista eh o seu jorge com boneh de driver e tudo... a menina sorri novamente e diz que meu polegar direito esta ferrado, que esse eh mais complicado de sair, e que eh assim mesmo com todos que tentam escapar do carbono... me passa um estilete amarelo dizendo que eh melhor eu cortar logo esse dedo fora... começa a tocar “desolation row” e o carro desliza na poeira da estrada... o vento movimenta os cabelos dela... enfio a mao no bolso e tiro as duas ultimas folhas de carbono azul fosforescente, amasso e enfio na boca... tem gosto de liberdade... de road movie... o sol estah se pondo na estrada, o cadilac anda forte... minha ultima visao são os labios humidos dela, um beijo e o ceu manchado do fim do dia, começando a virar negativo e aqueles cabelos morenos dancando em cima dos meus olhos enquanto os autofalantes cospem:
Einstein, disguised as Robin Hood
With his memories in a trunk
Passed this way an hour ago
With his friend, a jealous monk
He looked so immaculately frightful
As he bummed a cigarette
Then he went off sniffing drainpipes
And reciting the alphabet
Now you would not think to look at him
But he was famous long ago
For playing the electric violin
On Desolation Row
trad.:
Einstein, disfarçado de Robin Hood
Com suas memórias no porta-malas
Passou por aqui uma hora atrás
Com seu amigo, um monge invejoso
Parecendo imaculadamente assustador
Enquanto ele filava um cigarro
Então ele seguiu cheirando canos de esgotos
E recitando o alfabeto
E você nem pensaria ao vê-lo
Mas ele foi famoso há muito tempo
Tocando o violino elétrico
Na Fileira da Desolação
* desolation row, bob dylan